Por muitas décadas, o mundo se acostumou a uma ordem internacional liberal na qual o comércio marítimo e a cooperação econômica eram mais fáceis, o transporte marítimo global era mais previsível e os oceanos eram, em sua maioria, seguros para a navegação.
"O comércio marítimo se beneficiou de um mundo excepcionalmente estável. Essa era chegou ao fim", afirma JD Crouch, diretor-gerente de Estratégia Global da Gallagher. "A geopolítica é agora uma variável operacional chave que está redefinindo as rotas, os custos e a resiliência estratégica das cadeias de suprimentos globais."
Mas os riscos geopolíticos são apenas uma das várias forças que convergem para o setor de transporte marítimo. As mudanças climáticas, a transição para combustíveis mais limpos e a rápida digitalização da logística estão, cada uma à sua maneira, trazendo novos riscos e oportunidades.
Compreender as forças dominantes que moldam o risco do transporte marítimo global em 2026 é fundamental para construir resiliência estratégica nas redes logísticas e limitar as repercussões operacionais e financeiras de cadeias de suprimentos globais sob pressão.
Principais insights
- O transporte marítimo global está no centro de uma nova ordem mundial, na qual os países competem por seus interesses econômicos, territoriais e de segurança.
- As empresas estão repensando suas cadeias de suprimento para reduzir riscos, redirecionando mercadorias para países com regimes tarifários mais favoráveis.
- As mudanças climáticas intensificam todos os outros riscos: limitam rotas marítimas essenciais e colocam sob pressão uma infraestrutura portuária que não está preparada para as condições do século XXI.
- A tecnologia está transformando o transporte marítimo em escala global, mas também traz novas vulnerabilidades com o aumento da digitalização do setor.
Risco geopolítico e um comércio e transporte marítimo global cada vez mais fragmentado
A instabilidade e a fragmentação geopolítica estão se acelerando à medida que as nações reafirmam prioridades econômicas, territoriais e de segurança concorrentes.
"Há cinco anos, essas perturbações eram conceitos um tanto abstratos", afirma Adam Carrier, diretor de Consultoria da empresa AnotherDay, do grupo Gallagher. "O que realmente chamou a atenção das pessoas foi a invasão russa da Ucrânia e a percepção de que saímos definitivamente do período dos dividendos da paz e entramos neste novo território inexplorado de competição geopolítica, onde nada está realmente fora de questão."
Para o transporte marítimo global, o mais recente conflito no Oriente Médio está surgindo justamente quando o anterior parecia estar diminuindo. Nos últimos anos, os ataques houthis a embarcações que entravam no Mar Vermelho forçaram as principais companhias de contêineres a contornar o Cabo da Boa Esperança, acrescentando de 10 a 14 dias aos tempos de trânsito, aumentando o consumo de combustível e elevando os custos de seguro.
Mais recentemente, o fechamento do Estreito de Ormuz — o canal que liga o Golfo Pérsico ao resto do planeta — afetou os preços do petróleo e do gás natural. Os preços mais elevados da energia tornam o combustível mais caro para caminhões, navios-tanque e aviões, aumentando o custo do transporte de cargas em todos os setores.
A agricultura também está sendo afetada, já que os preços dos fertilizantes subiram. O Golfo é uma fonte chave de ureia, a principal forma de fertilizante nitrogenado. Enquanto isso, o conflito entre a Rússia e a Ucrânia continua a restringir as exportações agrícolas e de matérias primas, e os corredores de navegação seguros continuam frágeis.
O aumento da tensão entre a China e Taiwan representa o maior risco geopolítico futuro para o setor manufatureiro, que é a espinha dorsal das cadeias de suprimentos globais. "Os clientes são cada vez mais forçados a avaliar como manter o fluxo de mercadorias sem se exporem excessivamente a áreas vulneráveis", afirma Alec Russell, diretor-gerente da área de Carga Marítima da Gallagher Specialty. "Mas, da forma como o mundo está, não é possível evitar totalmente algumas regiões."
Novos corredores marítimos, novos riscos
A diversificação de riscos na cadeia de suprimentos tornou-se uma estratégia chave de resiliência para muitas empresas, com implicações para o transporte marítimo.
Estratégias como o onshoring podem reduzir os riscos em uma parte da cadeia de suprimentos, ao mesmo tempo em que introduzem riscos em outra parte. O onshoring pode trazer maior exposição ao roubo de cargas, por exemplo, ou a interrupções relacionadas com infraestruturas obsoletas. As rotas comerciais terrestres podem ser tão imprevisíveis e propensas a pontos críticos quanto as rotas marítimas globais.
"Estamos observando que as principais economias buscam apoiar e desenvolver corredores de comércio terrestre em grande escala, utilizando sistemas ferroviários, rodoviários e fluviais", afirma Anthony Smith, diretor executivo da W K Webster — uma empresa da Gallagher Bassett. "As empresas que redirecionam suas rotas por meio de corredores emergentes precisam avaliar a segurança física, a qualidade da infraestrutura e os pontos de transbordo intermodal com o mesmo rigor que aplicam ao transporte marítimo."